Privilégio: a possibilidade de fazer escolhas

A definição que escolhi para privilégio pode causar estranheza para alguns, pois para estes “a possibilidade de fazer escolhas” parece ser liberdade. E é. Acontece que ninguém é livre de verdade pois nossas escolhas trazem impactos para a sociedade e para nós mesmos.

 

meme-privilege
Tradução: “Eu tenho o privilégio de não saber quais são os meus privilégios.”

Há um tempo eu vi uma descrição bem sucinta das classes econômicas no Brasil (não tenho mais o link. Se alguém tiver, me manda que eu adiciono aqui):

Imagina que sua amiga descobriu que hoje tem o show da sua banda preferida daqui a 2 horas. Ela liga para te chamar e diz que o ingresso custa 150 reais!

Resposta classe A: “Em 20 minutos eu saio!”

Resposta classe B: “150 reais?…… tá, bora.”

Resposta classe C: “Poxa, já gastei o extra do mês. Se fosse 20 reais eu ia na hora! Que pena :(”

Resposta classe D: “Tá doida! Nossa, tá muito caro! Se fosse 10 reais eu até pensava em ir. Vou continuar escutando em casa mesmo.”

Resposta classe E: “Com esse dinheiro eu compro comida para 10 dias.”

Veja como a possibilidade de fazer escolhas foi mudando. Para alguém de classe A, gastos não planejados de 150 reais não afetam a sua vida: se ela quer, ela vai.

Para alguém de classe B, gastos não planejados são comuns, mas a resposta não é automática. A pausa antes do “tá bora” sinaliza uma contabilização rápida dos últimos gastos e dependendo deles a resposta poderia ter sido “não vai dar dessa vez.”

Já para a classe C, gastos não planejados são exceções. Dependendo do salário, das despesas e se ela for bem organizada, pode ter um extra para um ou dois deles.

150 reais já é bem fora da realidade para a classe D. Não que seja impossível ter gastos não planejados, mas o orçamento para eles é quase inexistente.

E finalmente, para a classe E esse é um mundo que não existe.

Eu usei um exemplo de privilégio econômico porque é bem fácil de explicar e porque é óbvio que 100% da população não pode ser classe A. Ela só pode existir se as outras classes também existirem. E como dinheiro e todos os outros recursos que temos são finitos (inclusive os renováveis), sempre teremos grupos com diferentes possibilidades de escolha.

Exemplos de privilégio econômico também facilitam compreender como nossas percepções de mundo são descritas em função deles. Se você convive com pessoas da sua mesma classe econômica, tendo reações semelhantes para a mesma situação, as suas percepções se tornam normais. Tão normais que seu discurso e sua forma de pensar sobre elas se tornam automáticas.

g1x1r4
Meme do fry escrito “Não sei se tudo é caro ou é (sic) eu que sou pobre mesmo”

O lugar mais divertido para absorver essa idéia é o site class média sofre. A premissa é que pessoas com muito mais privilégios do que a maior parte da população reclamam de coisas supérfluas. Lá tem várias coisas que eu considero engraçadas e/ou absurdas, mas tem algumas que eu já falei/pensei porque são pensamentos de quem acha vários privilégios da vida normais.

***

Um dos meus autores preferidos (e se tornou mais ainda depois da lapada que recebi de Paulo Freire)  é o Alex Castro – por sinal, ele é um dos donos do class média sofre. Ele escreveu um texto muito melhor que esse sobre privilegios chamado Prisão Privilégio, além de muitos outros com o tema prisões.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s